O Brasil que num determinado dia eu acordei (continuação)

Se bem lembram do que contei na semana passada, acordei um dia qualquer de um futuro a seguir a março de 2016, e na busca de me localizar no tempo e no espaço, conversei com dois passantes na calçada – o Cleydson da Silva e o Orfeu – e as notícias não foram nada boas. Percebi que havia acordado no Brasil ― apesar de estar morando em Portugal ― e que as coisas andavam muito embaralhadas.

Andei por uns minutos remoendo o que ouvira dos dois, e cada vez mais me sentia confuso e pessimista.

Fui a um café – o São Brás, para não perder o hábito – e ao chegar me deparei com um amigo e mais duas pessoas na mesa. Tapioca com côco e manteiga, e  um café, foi a pedida. E fui logo perguntando como estava a situação, depois de explicar a eles do meu longo sono.

O meu amigo é empresário. Os outros dois,  fiquei logo a saber,  é um professor universitário e um gestor público de  cargo técnico de nível superior. Agora estava mais confortável para conversar.

O amigo empresário, do ramo industrial, começou atirando: ― “não temos infraestruturas, nossa plataforma logística é ineficiente, a sobrecarga de impostos encarece demais os nossos produtos; não temos mão de obra qualificada, temos dificuldades de importar equipamentos e a exportação é muito complicada. Além disto tudo,  o custo financeiro assemelha-se à extorsão”. E continuou: ― “ em pleno momento tecnológico, não há uma cultura e incentivos para pesquisa e desenvolvimento aplicados, e a burocracia toma um precioso tempo principalmente dos pequenos empresários”.

―“Já que você menciounou a qualidade de mão-de-obra”, falou o professor, ―“saiba que o que eu recebo do ensino médio é uma geração de ineptos, despreparada em matemática e português, sem desejo de trabalhar e que só pensam em concursos públicos. As universidades viraram comitês políticos e base do trabalho de doutrina da ideologia comunista”.

―“Pois é”, falou o funcionário público. Caiu o governo, mas estamos aparelhados até o gogó. São greves sucessivas, operações tartarugas, todos preocupados com as investigações… tudo para criar dificuldade para este novo governo. Sucessão de escândalos. E o que era o rombo da Petrobrás, se estende a todas as empresas públicas”. Curioso que eu já havia escutado parte disto dos dois transeuntes que encontrei antes do café. E continuou: ―“ não há cultura de eficiência, compromisso com o país…Há uma estranha concepção que o que é público não é de ninguém”. E um paternalismo destruidor da livre iniciativa.

O amigo empresário, com um ar sombrio, pôs-se de pé à mesa, fêz um ar de desalento e provocou: ―“ as investigações produziram o efeito desejado, mas ao mesmo tempo perigoso para o país. Todos comprometidos. Para esta viagem, o Brasil precisa de líderes experientes, pessoas acima de qualquer suspeita, que galvanizem a população e que a convença dos sacrifícios que serão necessários nesta travessia”. Quem?

Levantei da mesa, me despedi rapidamente dos três, passei no caixa e pedi para por na conta, e fui para casa correndo, para voltar a dormir.

 

PS: Escrito qualquer dia após a queda deste governo espúrio que arrasou com o Brasil, após acordar de um logo sono e após um pesadelo…

RL

FOTO PERFIL 2016

Graduado e Pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, é especialista em Marketing, Estratégia, Modelagem e Estruturação de Negócios, no Brasil e em Portugal, através da B4-Business Solution. Foi professor de Estratégia e Marketing da Universidade de Pernambuco. Luso-brasileiro, vive em Portugal desde 1996. De lá para cá, percorreu cada canto do país, conhecendo e vivenciando tudo aquilo que Portugal oferece de melhor. É apaixonado por este país de uma dimensão cultural muito maior que o seu tamanho geográfico e populacional. É co-fundador e gestor do PortugalSim.

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