O Brasil que num determinado dia eu acordei

Acordei hoje com aquela sensação de quando saímos de um pesadelo no qual nos despenhamos e nos vemos no chão sem saber bem, quando e onde. Acordei algures, em qualquer mês deste período funesto, iniciado em finais de 2003, com a vitória de um molusco à presidência deste pobre país, aproximando-se é claro dos anos adiante de 2016. No intervalo deste, com qualquer um a seguir, antes de 2018. Foi por aí que acordei.

O meu receio, é que esta minha ausência tenha sido longa demais. Ela começou, em meados de Março de 2016 e se estendeu até não sei ainda bem quando. Rezo para que não tenha se prolongado muito, até a morte do meu paísQuando fui dormir, vivia  no Brasil um momento ímpar da sua história, onde se misturavam com uma volatilidade impressionante, corrupção, luta de poder, crise econômica estrutural interna, falta de infraestrutura. Era um país velho e inadequado aos tempos atuais. Deseducado….com o sentimento de insegurança física, descrença em tudo e apreensão com o futuro.

Me aparece alguém, que me parece instruído. E começa a falar… Ele se chamava Cleydson da Silva. Puxa, eu estava no Brasil.

“O senhor está fora há muito tempo? Nosso país sossobrou. Temos um povo, na sua maioria analfabeto funcional. Incapaz de compreender um texto, escrever algo com sentido e de fazer a mais simples regra de três. Com uma questionável ética de trabalho, despolitizado e com o seu referencial de valores e princípios que chafurda na mais putrefada lama de um chiqueiro. Até achamos que éramos fortes por que 6 milhões de pessoas foram as ruas…apenas 3% da população”.

E aí me apareceu mais alguém que começou a falar. Chamava-se Orfeu…“Uma estrutura de Estado sem princípios, agigantada, corrupta, antiga na sua forma de operar, e com uma visão distorcida do seu papel. Sem lideranças, com as instituições frágeis, contaminadas – vai demorar a sair esta sujeira toda impreganada – por um partido que queria ser mais do que o próprio país. Não há exceções: prefeituras e estados. Empresas públicas em ruptura financeira. Empreiteiras que não sabem como trabalhar sem propinas. Buracos financeiros maiores dos que os das rodovias federais e estaduais”. E seguiu adiante. Vi que ele carregava uma pasta com o nome de uma Universidade, que não consegui identificar.

“ O senhor não imagina o que fizeram com a nossa terra.  Números grosseiramente adulterados para enganar o povão e o público externo, vieram a nú. Se quisermos uma gestão pública séria, vamos ter que revê-los. Números e métodos. O PIB, depois de alguns anos de queda estabilizou (que sorte que era economista) mas não quer subir. A inflação encontrou um novo patamar. A dívida pública – que haviam dito no passado que estava paga – tornou-se, junto com o déficit crônico das contas internas e a fatura do INSS, a grande bronca nacional. As amarras que impedem o controle da inflação, a recuperação da moeda e a volta do crescimento. Outro entrave, as infraestruturas, todas aos cacos”, complementou este jovem rapaz que se juntou à conversa.

Quando a primeira pessoa assutada começou a se afastar, perguntei ao segundo sobre os causadores disto tudo: ele repondeu:  “Alguns foram presos, outros fugiram. As penas foram aos poucos reduzidas. Alguns até já pensam em voltar a se candidatar”.

Esfreguei os olhos. Não poderia ser verdade.

Depois deste choque, a única coisa que eu gostaria era de voltar aos braços do meu pesadelo. Acordar foi um duro choque. Um país todo para reconstruir não é mais para mim, já com uns sessenta e tal anos, pois não sabia ainda em que data havia acordado.

RL

FOTO PERFIL 2016

Escrito qualquer dia após a queda deste governo espúrio que arrasou com o Brasil, após acordar de um logo sono e após um pesadelo…

 

Graduado e Pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, é especialista em Marketing, Estratégia, Modelagem e Estruturação de Negócios, no Brasil e em Portugal, através da B4-Business Solution. Foi professor de Estratégia e Marketing da Universidade de Pernambuco. Luso-brasileiro, vive em Portugal desde 1996. De lá para cá, percorreu cada canto do país, conhecendo e vivenciando tudo aquilo que Portugal oferece de melhor. É apaixonado por este país de uma dimensão cultural muito maior que o seu tamanho geográfico e populacional. É co-fundador e gestor do PortugalSim.

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