O ocaso da imprensa, desconectada com o seu papel.

O ocaso da imprensa, desconectada com o seu papel.

Os mais atentos andam meio absortos com o que vem acontecendo com a imprensa mundial e, mais particularmente, com a imprensa brasileira. Para essa, reservarei um parágrafo no final.

Nos últimos anos, foram muitos os eventos que tiveram a sua devida repercussão na imprensa, e que a atingiram de forma abrupta e duradoura. O desinteresse pelos textos longos e pela linguagem; o surgimento dos canais de TV dirigidos a temas e públicos específicos; a imagem se sobrepondo ao texto; a internet levando às pessoas, através dos mais diferentes meios – redes sociais, podcasts, canais do Youtube, twitter, as lives e, mais recentemente, as sala virtuais – a se desinteressarem pelo formato careta, lento e inadequado da imprensa falada, televisiva e escrita. Não esquecer que, no passado, dar uma notícia a noite de algo que ocorreu pela manhã era aceitável. Era o costume. Agora, através dos celulares, captamos imagens e fatos na hora. A notícia precisa ser consumida cada vez mais quente. E o tempo levado à imprensa convencional a chegar com a notícia ao “seu cliente” passou a ser uma eternidade diante das redes sociais. Agora, todo cidadão é um repórter e pode registrar a imagem e mensagem na hora. E divulgá-la massivamente.

De uma forma geral, com soberba, acharam que nada iria mudar. E tudo mudou.

Perda de clientes – audiência – leva a perda de anunciantes. Nos jornais e revistas, uma queda brutal nas vendas em banca e assinatura. Perderam vendas de exemplares e anúncios, num processo autofágico que levou ao sucateamento da imprensa que teve que se subjugar a outros alinhamentos. Sem autonomia financeira, perderam a liberdade de opinião e passaram a ser instrumentos de governos e de lobbys empresariais de maneira desavergonhada. Não que não ocorresse antes. A diferença foi a subjugação total e a vinculação à ideologia. E a violenta crise financeira – estrutural – que se abateu sobre o setor. Dependentes das verbas de governo, com definições nada técnicas, e sem as verbas do mercado – estas sim, dependentes de audiência – a dependência criou um estranho parasita que suga o recurso público de quem governa.

Não se reinventaram e entraram num processo de decadência de programação e qualidade de informação que continuou a confirmar o desígnio do setor. Aqui, convém lembrar, que o grande perdedor foi a democracia e os leitores que formavam às suas opiniões em função de uma imprensa independente.

O rio continuou a correr e, é óbvio, que a confiança que tínhamos na nossa imprensa independente sumiu. Se esvaiu.

Fui do tempo em que ler a Folha de São Paulo e o Estadão era imperioso para se formar uma. opinião. Agora é ver só um lado da história. Uma imprensa militante, e que se recusa a mostrar os lados opostos com neutralidade e equanimidade. Que quer pressionar um governo que resolveu cortar verbas. Comprar apoio. A Televisão passou a ser instrumento de uma luta de poder e costumes. Um instrumento de desestabilização descontrolada que invadiu os lares e desarrumou os costumes e a família.

Como julgo que deveria ser a imprensa de uma forma geral: como uma alimentadora da sociedade de culturas e pontos de vista diversos. Informando fatos de maneira isenta. Dando espaço a pontos de vista antagônicos através dos seus articulistas e editoriais. Como instrumento de comunicação imparcial com a sociedade nos momentos difíceis, e como uma salvaguarda à moral, costumes e à nossa cultura. Se não for assim, não precisamos dela.

Convém lembrar, que essa desarrumação de conteúdo vem também em função de outros vetores. As universidades de sociologia, letras, história, antropologia e jornalismo foram inundadas de ideologias de esquerda a mando de um processo em curso maior. Aparelhadas, talvez seja um termo mais preciso. Até mesmo as escolas de economia, viram fechadas as portas às ideias liberais e conservadoras, sempre perdendo espaço para o chamado “progressismo” da esquerda. E é nelas que os jornalistas são recrutados.

Com as portas fechadas ao jornalismo ético e a um espaço da direita conservadora, vivemos hoje um jornalismo pedinte, de má qualidade e panfletário de uma nova ordem mundial. Uma verdadeira desordem de papéis. E o vazio está sendo preenchido pelas redes sociais.

Renato Leal

Setúbal, 17jun2020

Foto RL: Num café de Colares

Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internalizá-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

Renato Leal

Graduado e Pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, é especialista em Marketing, Estratégia, Modelagem e Estruturação de Negócios, no Brasil e em Portugal, através da B4-Business Solution. Foi professor de Estratégia e Marketing da Universidade de Pernambuco. Luso-brasileiro, vive em Portugal desde 1996. De lá para cá, percorreu cada canto do país, conhecendo e vivenciando tudo aquilo que Portugal oferece de melhor. É apaixonado por este país de uma dimensão cultural muito maior que o seu tamanho geográfico e populacional. É co-fundador e gestor do PortugalSim.

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