O QUE NOS DÁ PAZ INTERIOR?

O QUE NOS DÁ PAZ INTERIOR?

Numa percepção búdica, o que perturba a nossa mente não são os fatos e a matéria objetiva em si, mas sim a forma como a nossa mente reage a estes fatos. O aparecimento das delusões – o apego, a inveja, o ódio, a ignorância do agarramento ao em si e a mente autocentrada, entre outras – é que destroem a nossa paz interior e transtornam a nossa vida, as nossas relações, ações e o nosso eu. Nos fazem praticar atos que, sem a mente deludida, jamais faríamos. Nos tornam ansiosos, tensos, nervosos, agressivos e egoístas no contexto social. Não agindo com clareza mental, agimos mal e aí está outra fonte de perturbação da nossa paz interior. Nossas más escolhas, fruto da mente não clara e perturbada, vão condicionar negativamente a nossa vida e nos afastar do nosso propósito.

Na introdução do seu livro Como Entender a Mente, Geshe Kelsang Gyatso afirma “que felicidade e sofrimento são sensações e, portanto, suas causas principais não se encontram fora da mente”. E prossegue….” Quando as coisas dão errado na nossa vida, e encontramos situações difíceis, temos a tendência para considerar a situação, em si mesma, como sendo o problema…. se respondêssemos às situações exteriores difíceis com uma mente positiva ou pacífica, não seriam problemas para nós…. problemas surgem somente quando respondemos às situações exteriores difíceis com um estado mental negativo”. Deludido, diria eu.

Evidente que não é fácil compreender estes conceitos, sem adentrarmos aos ensinamentos e à filosofia budista. Precisamos compreender como eles pensam e sentem. E sobre quais premissas e crenças. Tenho treinado muito, desde que comecei a estudar e praticar os ensinamentos que estão contidos no Darma. Confesso que o estado de permanente vigilância contra estas ditas delusões funciona mesmo, nos colocando numa posição mais estabilizada diante da vida e com mais clareza mental. Mas não é fácil de se estar. Exige muito treino e concentração, que vão sendo adquiridos com a prática diária da meditação.

Complementarmente a estas explicações resumidas da percepção budista da paz interior, vejo também que o autoconhecimento e o propósito de vida claro e internalizado, são também peças-chave nesta busca “de um sono melhor”. Sem a perturbação das delusões, sabendo quem somos, e por que estamos aqui nesta vida, tudo fica claro. É mais do que natural o atingimento do estado de paz mental. E cria-se assim “a pescadinha com rabo na boca”, um ciclo virtuoso de paz interior.

Assim vivemos melhor, conosco e com os outros. Desta forma dormimos melhor, pois dormir bem é quase a confirmação de uma paz mental. Parece, que é à noite, que as delusões atacam com mais intensidade e as inconsistências da nossa vida – o que fazemos, vis a vis o que gostaríamos de fazer e no que acreditamos – afloram, perturbando o nosso sono. A falta deste alinhamento é fatal.

Viver de acordo com as nossas crenças pessoais – o resultado que vai se acumulando de tudo o que vivemos ao longo da nossa vida – e não de acordo com modismos, exigências da sociedade ou para agradar incondicionalmente terceiros, complementa a eterna vigilância apregoada acima.

No mais, um pouco de Fé nos faz acreditar que somos muito mais do que pensamos que somos. E que há muitos a zelarem por nós.

 

Renato Leal

 

Setúbal, 8jan2020

Em tempo: Chamo de propósito aquilo que é natural que nos faz sentir tesão, brilhar, sorrir. Que nos faz seguir em frente, apesar das dificuldades. Algo que parece adquirido ao longo da vida, mas que parte vem conosco. Não é aquilo a que nos agarramos, com unhas e dentes, para fugir de uma determinada situação.

 

Foto RL: Um detalhe do Recanto Fernando Pessoa, Café da Livraria Bertrand, da Rua Garret, Lisboa

 

Escrevo, não para convencer ninguém, mas sim porque gosto, me ajuda a pensar, a organizar as minhas ideias e opiniões e internaliza-las. Não escrevo porque acho que estou certo e muito menos por pretensões literárias. Apenas quero uma referência para fazer crescer as minhas convicções, ou para saber quando, e porque, mudo de opinião. Para tentar visualizar o futuro e olhar para trás com consistência e visão crítica.

Escrevo também, para que aqueles que discordam das minhas opiniões tenham mais uma oportunidade para pensar e ter convicções sobre o que pensa. Ou não. E para os que concordem, saibam que não estão sós no mundo.

E, finalmente, lembro que quem escreve é refém do momento, das informações que dispõe, e de como é e pensa, neste mesmo momento.

Renato Leal

Graduado e Pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, é especialista em Marketing, Estratégia, Modelagem e Estruturação de Negócios, no Brasil e em Portugal, através da B4-Business Solution. Foi professor de Estratégia e Marketing da Universidade de Pernambuco. Luso-brasileiro, vive em Portugal desde 1996. De lá para cá, percorreu cada canto do país, conhecendo e vivenciando tudo aquilo que Portugal oferece de melhor. É apaixonado por este país de uma dimensão cultural muito maior que o seu tamanho geográfico e populacional. É co-fundador e gestor do PortugalSim.

2 thoughts on “O QUE NOS DÁ PAZ INTERIOR?

  1. Olá! Renato,

    Gostei muito do seu artigo e concordo com ele. No entanto, parece que me falta uma Vontade Maior que faça com que a gente prossiga no caminho da reta ação, ou seja, do nosso Darma. Requer, realmente, muita atenção e ter um propósito, como você falou, que nos impulsione. O que está ainda enraizado no nosso corpo dos desejos (Kama-Manas) e Astral, pensamentos e emoções, nesse mundo manifesto ou ilusório, nos tira a paz de espírito em diversas situações. Hoje mesmo eu estava refletindo sobre a minha falta de indulgência para com os defeitos alheios, o quanto mexe com o meu emocional. Me pego reclamando, e, com certeza, isso me tira o equilíbrio. Certas vezes somos pegos pelo interesse e falta de benevolência. Tenho ciência que devo discernir melhor e optar sobre o que é eterno, ou seja: paciência, tolerância, gentileza, humildade, justiça, desprendimento, fraternidade, etc.
    O fato de me deixar incomodar mostra que ainda estou longe dessa paz almejada, precisando de muitas outras reencarnações. Acredito que o caminho é o de servir ao próximo, para nos melhorarmos e, assim, contribuirmos para uma sociedade mais fraterna, que penso ser o nosso propósito.
    Abraços, amigo.

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