Silenciar é reencontrar o nosso eu e o nosso Deus.

Silenciar é reencontrar o nosso eu e o nosso Deus.

A nossa geração, aqueles que nasceram na década que se seguiu ao final da II Grande Guerra, passou a viver sob a ameaça de um inimigo que foi se tornando poderoso, à medida que as décadas foram se sucedendo. Estamos aqui tratando dos ruídos sonoros, advindo da proliferação dos automóveis e do trânsito; da música em aparelhos cada vez mais potentes, e do surgimento do rock e das discotecas, entre outros. A miniaturização dos equipamentos de som, aproximou os auto-falantes dos nossos tímpanos e passamos a viver sob uma enorme pressão dos ruídos sonoros. Cada vez mais tempo. Até para caminhar, paradoxalmente para fugir dos ruídos externos, chegaram os headphones para “ajudar”.

Mas não há somente ruido sonoro. Há o ruído do saltitar de assuntos, temas, imagens e estímulos que, nas últimas gerações, criaram uma parafernália de situações que poluem os nossos sentidos, desnorteando as nossas ações que deveriam ser mais focadas, sem fontes de dispersão e com tempos de descanso, reflexão… e espaços de tempo para nada fazer. Sentar e simplesmente desligar. Caminhar, apenas se ouvindo. Abrindo espaço para as conversas com estas duas entidades que andam dentro de cada um de nós: Deus e a nossa seidade.

Até ao dormir, nossa mente não para. Acordamos, intermitentemente, durante a noite com assuntos, preocupações e frustrações na cabeça, sem a mínima chance de resolvê-los.

Sem esse tempo para nós, não há tempo de qualidade para os outros: filhos, netos, parceiro de vida e nossos amigos mais próximos.

A tecnologia propiciou a nós o mundo no nosso smartphone. Mas não nos ensinou a desligar. Temos acesso e estímulos globais e perdemos o acesso a Deus, e a nós próprios. Sem falar nos entes queridos que nos rodeiam, mas que ignoramos. Perdemos o nosso tempo.

Estamos impossibilitados de pensar com a devida calma sobre o que nos cerca e o que está dentro de nós. Patético. Trágico. Inconsequente.

Você que conseguiu ler até aqui, o que acha disso? Acontece com você? Com os seus? Onde isto está a nos levar? Tem alguma ideia onde isso termina?

Experimente desligar diariamente, quebrando o dia em etapas. E busque apenas o silêncio. Pare um dia por semana, um final de semana por mês, uma semana por semestre e observe os efeitos que isto trará na sua vida e naqueles que te cercam. Mas em silêncio…

Ouse caminhar observando o silêncio. Sem música e quaisquer estímulos. Faça algumas vezes e observe. O que sentiu e o que mudou?

O silêncio é uma forma de defesa do nosso eu, e uma maneira de fazê-lo desabrochar. Ele é o sopro de tranquilidade que nos põe de volta nos nossos trilhos ou nos faz mudar, com sabedoria, e sem espasmos erráticos e induzidos por estes ruídos invasivos dos novos tempos. Viver é prestar atenção…

Momentos de silêncio. Curtos, de média e longa durações. Pratique até silêncio acompanhado, deitado no colo ou de mãos dadas com quem de direito, sem que o seu companheiro quebre este pacto.

Silenciar é reencontrar o nosso eu, o nosso Deus. É uma forma de respeito. É essencial para nossa paz interior. E é também uma forma de aliviar o nosso corpo de toda esta carga química que os ruídos empurram para dentro de nós. Silêncio.

RL

Aldeia do Penedo, Sintra

Foto: RL –  O meu canto na Aldeia…bem lá no cimo.

Graduado e Pós-Graduado pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, é especialista em Marketing, Estratégia, Modelagem e Estruturação de Negócios, no Brasil e em Portugal, através da B4-Business Solution. Foi professor de Estratégia e Marketing da Universidade de Pernambuco. Luso-brasileiro, vive em Portugal desde 1996. De lá para cá, percorreu cada canto do país, conhecendo e vivenciando tudo aquilo que Portugal oferece de melhor. É apaixonado por este país de uma dimensão cultural muito maior que o seu tamanho geográfico e populacional. É co-fundador e gestor do PortugalSim.

2 thoughts on “Silenciar é reencontrar o nosso eu e o nosso Deus.

  1. Excelente texto, Renato.
    A prática do silêncio de quando se está em paz, é uma delícia, mas quando estamos inquietos, os silêncio nos dar mais angustias. Se bem que o comando dos pensamentos tem que está em sintonia com os sentimentos, seja dor ou alegria.
    Pratico muito o silêncio, ele me dá uma bússola para o seguir com os meus propósitos.

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